sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

TRAMPOLIM INTERDITADO


 “Se toda a atenção e força forem dadas a uma só, enquanto as outras permanecem inativas, essa terá um grande desenvolvimento, que a levará a extremos, porque não cultivou, todas as faculdades. Algumas mentes ficam anãs, sem o devido equilíbrio. Nem todas as mentes são iguais por natureza. Temos mentalidades várias; alguns são fortes em determinados pontos, e muitos fracos em outros.” – Mente, Caráter e Personalidade. Vol. 1. Pág. 50.

Os estudantes que querem andar a passos largos em Brasília terão que achar outra forma para fazê-lo porque não podem mais pular. Não é mais permitido pular os alunos não concluintes do último ano do ensino médio para a Universidade de Brasília.
“A Promotoria de Justiça de Defesa da Educação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) se posicionou favorável à nova norma do Conselho de Educação do DF (CEDF) que veta a conclusão antecipada do 3º ano do ensino médio. Os promotores defendem que a resolução não é inconstitucional, principal argumento usado pelas entidades representativas de pais e estudantes na tentativa de derrubar judicialmente a determinação distrital. Segundo a promotora Tânia Regina Fernandes, a orientação do CEDF às escolas é baseada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). ‘A norma não tem nada de inconstitucional. É uma orientação que deixa claro o que é previsto em uma lei ordinária nacional’, explicou a representante do MPDFT. Segundo ela, a LDB prevê que o ensino médio tenha, no mínimo, três anos. ‘A exceção é aplicada somente para os estudantes com altas habilidades comprovadas. Fora esses casos, não há uma lei que permita o término da última etapa da educação básica antes desse período’, completou Tânia.” - http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/eu-estudante/ensino_ensinosuperior/2013/01/10/ensino_ensinosuperior_interna,343214/mp-e-contra-o-fim-prematuro-do-3-ano.shtml.
“Esta norma do Conselho de Educação do DF vai de encontro com o que a gente vivencia no ambiente universitário. O aluno do ensino superior ainda entra muito imaturo. É preciso dar um espaço de amadurecimento para essas pessoas. Na verdade, essa norma abre uma discussão maior. Para receber os alunos precoces, seria necessário mudar o estilo da universidade e o modelo pedagógico do ensino médio. Algumas instituições internacionais conseguem adiar a escolha dos egressos ao fazer a seleção por área e não por curso específico. O ensino médio também deveria trabalhar essa transição, está tudo associado. O aluno nas últimas três séries acaba tendo os estudos muito voltados para o vestibular. Uma boa mudança seria inserir no currículo algumas reflexões em relação ao mundo do trabalho, no qual ele vai ser inserido depois. É claro que estamos falando da formação da pessoa como cidadão, ser humano, mas ele vai ser encaminhado para a formação profissional e isso começa no ensino médio. A decisão do conselho é pontual, mas é um ponto positivo para refletir os modelos." Bernardo Kipnis (Professor da Faculdade de Educação da UnB e doutor em educação pela Universidade de Londres) - http://www.unb.br/noticias/unbagencia/cpmod.php?id=93411.
Este é um assunto muito delicado e concordo plenamente com o comentário do Professor Kipnis. Se for feito uma comparação entre os estudantes das universidades brasileira no decorrer da história, pode-se notar que os jovens estão ingressando cada vez mais cedo no ensino superior, me pergunto por quê e para quê?
Ao conversar com pessoas que se formaram na UnB, por exemplo, nas décadas de 60 à 80, por aí, é muito comum ouvir o comentário de que naquela época, as pessoas entravam bem mais tarde na Universidade. Ao terminar seus estudos, antes de ingressarem na universidade, as pessoas procuravam explorar um pouco o mundo, na medida do possível. Depois, ao terem então uma certa experiência de vida, iam adentrar em uma universidade.
Ao ouvir estes relatos, fico então me imaginando nesta época, com a idade que tenho hoje, viajando por aí e conhecendo coisas novas, conhecendo outros países, outras culturas... na verdade hoje é diferente. Os jovens querem primeiro ter um diploma de nível superior e um emprego o mais estável possível para então começarem a explorar o mundo. Quanto ao termo “explorar”, acho que é pano para outra manga.
Impedir que os alunos do último ano do ensino médio ingressem na universidade pode ser muito bom para algumas pessoas e muito ruim para outras, mas a verdade é que esta decisão não é uma afirmação de que o aluno não tenha capacidade intelectual para ingressar na universidade. Quanto à sua capacidade emocional, esta sim precisa ser verificada.
Eu concluí o ensino médio em 2008, já sabia o que queria: estudar artes plásticas e arquitetura. Já havia planejado como fazer: primeiro artes, depois arquitetura. Em meus sonhos, no ano seguinte ingressaria no ensino superior, mas não foi bem isso que aconteceu, não passei no vestibular que fiz para o segundo semestre de  2009 e só passei no primeiro de 2010. Para mim, aquilo era um grande atraso de vida e por não ter mais ânimo para estudar, cada vestibular que passava, minha chance eram menores de ser aprovado. Mas o que ocorreu foi que exatamente no final daquele ano me envolvi em um projeto no Tocantins, onde pela primeira vez fiquei longe de minha família, num lugar desconhecido até então e com pessoas também desconhecidas. Aquela foi a minha grande oportunidade de aprender a lidar com pessoas diferentes em situações também muito diferentes da minha realidade até então.
Hoje, conto para todos que eu não estaria tão preparado psicologicamente para entrar na universidade em 2009 como estava em 2010. O aprendizado tão marcante que costumo dizer que 50% de tudo que sei hoje, aprendi em dois meses no Tocantins.
É muito comum se encontrar estudantes na UnB que ingressaram na metade do 3º ano do ensino médio, difícil é encontrar alunos formados e sem problemas em seu curso nesta mesma situação. Boa parte dos alunos que ingressam na universidade vindo sem o ensino médio completo, passaram em cursos que não são bem o que queriam, porque geralmente querem cursos com uma alta nota de corte e para terem mais chance de ingressar, entram em cursos com uma nota de corte inferior ao que realmente queriam. Mais frustrados ficam quando percebem que com a nota que entraram, poderiam ter entrado no curso que queriam, como em alguns casos que conheço.
Aí estes alunos começam a tentar mudar de curso, vão fazendo vestibular, tentando transferência interna, seja o que for. Isso não é ruim para o aluno, correr atrás de seus ideais, é louvável. Mas ao deixar sua vaga ao mudar de curso, implica deixar uma pessoa que queria estar em seu lugar, mas ele tomou sua vaga. Prejuízo para o aluno que não passou, para os cofres públicos, para os professores que lhe deram aula... em maior ou menor escala, prejuízo.
Fora que ao entrar na universidade, seja no curso dos seus sonhos, seja no curso de seus pesadelos, tudo é muito legal. Fascinante. A vontade é experimentar tudo o que puder ser experimentado lá. E é aqui onde a maturidade novamente tem voz. Quando digo que não estaria tão preparado em 2009 quanto em 2010, quero dizer que meus princípios estavam muito mais vulneráveis em 2009 que em 2010. É daí onde surge (e com razão) a preocupação de muitos mais velhos com relação à um calouro na universidade. O ser humano, tem por natureza, a tendência de caminhar para o exagero. E ao ingressar na universidade, com certeza, o aluno precisa ter uma estrutura psicológica equilibrada para ser capaz de tomar boas decisões diante das situações em que se deparar.
Novamente concordando com o professor Kipnis, o ensino médio deve ter sim esta responsabilidade de procurar ajudar seus alunos a serem pessoas equilibradas, mas vou um pouco mais longe, o ensino completo: maternal, infantil, fundamental, médio e a família que, ao meu ver é a mais responsável por isso. Sei que o professor Kipinis, não se referiu apenas ao ensino médio como o único responsável, mas como ele disse, isso é uma abertura (bem abrangente para uma discursão).

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