segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

DEZ PARA A CONFIANÇA OU DESCONFIANÇA?


“O educador prudente... procurará promover a confiança e fortalecer o sentimento de honra. As crianças e jovens são beneficiadas quando se deposita neles confiança. Muitos, mesmo dentre os pequeninos, têm um elevado senso de honra, todos desejam ser tratados com confiança e respeito, e têm direito a isso. Deve-se ter cuidado de eles não pressintam não poderem sair ou entrar sem ser vigiados. A suspeita desmoraliza, produzindo os mesmos males que procura evitar... Levemos os jovens a sentir que merecem confiança, e poucos haverá que não procurarão mostrar-se dignos dessa confiança.” – Educação, pág. 289, 290 (1903).

Certo dia, assisti uma matéria de um programa televisivo. O repórter perguntava para alguns brasileiros se eles achavam que no Brasil (especialmente em Brasília) havia muita desonestidade. Sim, eram as respostas. Em seguida ele perguntava se estas pessoas se consideravam honestas. A reação de surpresa era instantânea: uma rápida reflexão e as respostas variavam entre sim e não. Muitas pessoas fora do Brasil considera o brasileiro uma pessoa não muito digna de confiança, de onde nasceu este preconceito e quem é o povo considerado de melhor confiança? Mas no Brasil, o pensamento é o mesmo?
Imagine uma sala de aula em um momento de prova. A você que imagina o professor atento à menor suspeita de cola, deve ser feita a seguinte pergunta: o que aquele professor está fazendo ali? Sim, esta pergunta deve ser feita, uma vez que ao professor estar atento à má fé dos alunos, ele próprio está dizendo aos alunos que não confia neles. Um ato desse, soaria ofensivo à muitos de nós, caso compreendêssemos a profundidade de algo assim. Ninguém se sentiria bem em um lugar em que seu caráter é questionado.
Eu não concordo que o professor vigie seus alunos enquanto realizam uma prova. Mas é claro que se a partir de amanhã muitos ou todos os professores adotarem esta posição (em sala de aula), muitas coisas podem acontecer: Alguns alunos ao entenderem que o professor não desconfia de seu caráter, se sentirão mais livres e usarão esta liberdade para exercerem dignamente a sua honestidade enquanto outros irão aproveitar esta atitude do professor para usarem sua liberdade para seus intuitos egoístas agindo desonestamente.
Algo assim, é uma questão de tempo. Até que a educação brasileira esteja plenamente apta para que nenhuma escola precise adotar este método de vigiar os alunos, muitos anos serão percorridos. Penso que podemos começar no primeiro ano tirando este hábito da primeira série, no segundo ano da segunda série, terceiro ano terceira série e assim por diante, seriam no mínimo onze ou doze anos. Mas com certeza, esse tipo de método seria muito mais eficaz se as famílias estivessem estimulando paralelamente estas crianças e adolescentes a exercerem de modo positivo sua liberdade, em seus lares.
Nós estamos muitas vezes tão possuídos pela desconfiança nos outros que aprendemos na escola, que pensar em uma educação assim parece inviável: e os alunos desonestos? Em minha opinião (que é a mesma da autora da citação acima) os desonestos seriam minoria, gente que não sabe exercer bem sua liberdade, mas estes seriam prontamente assistenciados pelos seus colegas honestos. Crianças estimuladas a serem honestas não irão colar, dar cola ou apoiar quem cola. A criança desonesta seria denunciada pelos seus colegas ou se constrangeria por sua atitude em meio aos demais.
Certo dia, em uma reunião, alguém comentou:
- Hoje nós nem temos muito a noção do que é honra...
- ...só os japoneses... – Brinquei.
Eu vejo crianças como meu irmão, recém-ingressas no sistema educacional e fico admirado com tamanho orgulho de si ao tirarem boas notas e desapontados ao tirarem más notas. Mas devem ser raros os casos de crianças nestas séries iniciais que se orgulham de terem tirado uma boa nota decorrente de um ato desonesto.
Me lembro que quando estava na segunda série, a minha turma começou a aprender tabuada. A avaliação da professora era colocar três alunos virados para o quadro e responder o que ela perguntasse. Uma menina (repetente, portanto, mais velha que os demais) respondia as perguntas com a cabeça encostada no quadro, demorava mas acertava. Para a surpresa de todos, a professora descobriu que a menina estava com a tabuada na sua frente, presa com sua testa no quadro e bem diante de seus olhos. Nós, mais novos, ficamos escandalizados, rimos dela, achando que aquilo era uma verdadeira tolice. Ao ficarmos mais velhos, cada um foi desenvolvendo sua estratégia de tirar vantagem em cima da desatenção do professor.
Eu tenho meu orgulho de dizer que nunca colei, não que eu nunca tenha pensado em fazer isso, mas acho que nunca tive coragem mesmo, prefiro tirar uma nota baixa a correr o risco de ser conhecido como desonesto. Mas certa vez eu posso dizer que colei, embora não diga. Era uma prova de ciências, na sexta série. Eu estava por dentro da matéria e diante da prova me deparei com uma pergunta que eu sabia a resposta mas não conseguia me lembrar, então perguntei ao meu melhor amigo que estava na cadeira ao lado. Foi muito engraçado e constrangedor, porque ele pensou que eu estava querendo cola, mas na verdade eu simplesmente esqueci que estávamos em momento de prova, tanto é que perguntei em alto e bom som. Ele ficou com medo, e antes de me dar a resposta cochichou para que eu falasse baixo. Eu então me toquei, fiquei com tanto medo que não tive coragem nem de dizer para ele não me falar a resposta mais. Mas sabe aquelas horas que você pensa em tudo em milésimos de segundo? No intervalo em que ele me pediu para falar baixo e me dar a resposta eu raciocinei que fora sorte eu ter falado alto e a professora não ter escutado então, era melhor não falar mais nada para não correr o risco dela ver, prejudicando assim ao meu amigo e eu. Acho que isso pode ter sido considerado cola uma vez que me utilizei da resposta do meu amigo para ganhar o pontinho daquela questão, mas por outro lado não acho que possa ter sido considerado uma vez que eu sabia a resposta embora não me lembrasse a palavra e que no fundo, eu não tinha a mínima intenção de colar. Julgue você o que achar correto.
Precisamos como educadores, resgatar o senso de honra nos estudantes, para que sejam cidadãos mais ativos na sociedade, incomodados com as injustiças, desigualdades, omissões... que se inquietem e saibam tomar uma posição firme diante do que vivenciarem, para o bem e contra o mal, pois há dentro de cada um uma inquietação, mas se esta não é trabalhada, acabamos repetindo o que a maioria das pessoas fazem: ficam omissas. Há ainda diversos outros costumes existentes na educação brasileira que induzem os alunos a se tornarem desconfiados, perderem o senso de honra e honestidade e respeitarem a si mesmos e aos outros, mas por hoje, paramos por aqui, no texto.

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