quinta-feira, 16 de junho de 2016

DIA DE REFLETIR

Em 1991 a OUA instituiu o dia 16 de junho como o dia da criança africana. Bem o motivo foi porque neste dia, em 1976, na África do Sul, 95 pessoas foram mortas (mas normalmente se diz 176, incluindo crianças que protestavam contra a inferioridade das escolas negras na África do Sul. Naquela época, as crianças brancas não pagavam e tinham bons professores, enquanto que as crianças negras, além de pagar, ainda recebiam uma má educação, e por isso foram à um protesto pacífico mas muitas delas, como sabemos, jamais voltaram para seus lares, foram mortas pela própria polícia, entre eles, Hector Pieterson que morreu ao fugir da polícia e uma foto viralizou tornando-o simbolo do apartheid.

Muitos anos se passaram, eu que nasci em 1991, de lá pra cá já se foi um quarto de século, e me parece que ainda tem tanta coisa para melhorar na educação.. Bem, não sou africano, mas tenho certeza que tenho um pé lá, não é à toa que sou negro, do cabelo enrolado.. Mas aqui no Brasil, não estamos muito longe de uma realidade bem triste para a educação. Se falarmos de valores, podemos usar o argumento de que as escolas públicas no Brasil, que atendem a maior parcela de estudantes negros, é gratuita. Ok, isso é verdade, parece que agora os estudantes brancos é que pagam mais caro, mas também, continuam a obter uma educação de melhor qualidade.

Não que não tenhamos ótimos professores no ensino público, temos sim, bem, como eu estudei em escolas públicas do DF e Goiás, eu percebo o quanto muitos professores se esforçavam para dar o melhor de si. Mas a estrutura realmente não ajudava, até que no DF a situação era mais bacana, mas no Goiás, a poucos minutos do DF, o quadro já mudava consideravelmente. Eu sou estudante de licenciatura, no DF, temos boas chances de trabalho, na rede pública ou particular. Mas basta ir para outro estado, atravessar a fronteira do DF e o que encontro por lá como condições de trabalho? É lamentável que uma nação esteja tão afundada na perca de valores.

Que a educação precisa melhorar, isso nós já sabemos, mas como fazer para melhorar? Me desculpe a forma de pensar, mas não podemos esperar que o governo tome a iniciativa, porque o governo não é quem representa o povo, o governo é o próprio povo. A educação tem um papel importantíssimo nesta conscientização! Olha que genial o que fizeram os moradores de Barra Mansa no Rio de Janeiro. Depois de tanto esperar por uma ponte para atravessar um riacho que pelas fotos acho que não passa de 10 metros de largura, eles mesmos tomaram a iniciativa de construir esta ponte, que custou R$ 5000,00, enquanto a prefeitura havia orçado a mesma obra em R$ 270000,00. Ora, é óbvio que havia um esquema para desvio de dinheiro nisso aí, não sei se houve apoio técnico de um arquiteto ou engenheiro, para calcular esta ponte, mas a estrutura me parece bem forte e o uso é apenas para pessoas passarem, se fosse para passar carros, com certeza a estrutura precisaria de um engenheiro para administrar a obra.

Os moradores esperaram 20 anos, até que duas senhoras (Juracy da Conceição e Manoelina dos Santos, ambas donas de casa) tomaram a iniciativa de arrecadar fundos e logo os moradores se envolveram no projeto em cerca de 130 pessoas participaram de forma direta ou indireta da obra, que eles mesmos construíram. Iniciativa! Já dizia John Kennedy (ex-presidente dos Estados Unidos): "não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por ele". Acho que a educação tem esse papel e já que os políticos, que mantém o poder sobre as verbas não nos ajudam, vamos fazer e cobrar, cobrar mais. Eu fiquei super animado com esta notícia, poxa, poderia se fazer um levantamento de quem participou desta obra e lhes dar o valor investido em descontos nos impostos ou devolução por parte do governo municipal, estadual ou federal, seja quem for que tivesse que pagar. Mesmo com a altíssima tributação que temos, imagine se você pudesse ter o que precisa em seu bairro? Você pode, nós podemos, o sistema que existe hoje não é uma regra, é uma opção, e com educação, iniciativa e união, podemos criar um sistema melhor.

Os estudantes de Soweto na África do Sul, naquele dia marchavam em direção à um estádio para protestar, e que coincidência: hoje, dia 16 de junho também se comemora o aniversário do estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã. O que isso tem a ver com este texto todo sobre educação, bem, eu não acho que ainda sejamos o país do futebol, mas este jogo ainda atrai mais que a escola, a política e a pesquisa. Não que seja ruim, até curto passar alguns minutos vendo o Brasil apanhar no futebol, torço pela vitória até o último minuto mesmo vendo a representação do nosso povo em campo: cada um querendo ser melhor, falta de liderança, pessoas que ganham milhões por conta da propaganda manipuladora por trás que financia aquilo tudo. E espero que voltemos a ser o país do futebol, mas que nos tornemos o país da educação e da poplítica séria também. E termino com a pergunta: o que você pode fazer pelo seu país hoje?

quinta-feira, 2 de junho de 2016

VOCÊ TEM O DIREITO DE MANIFESTAR CALADO

Era noite, por volta das 21h do dia 1º de junho de 2016. Eu chegava à Rodoviária do Plano Piloto e em minha direção corriam uns três homens em uma velocidade absurda. O que ficou para trás foi derrubado por três policiais que o espancaram com chutes e socos embora ele já estivesse no chão, contido, mas ainda oferecia resistência. Eu passei ao lado e parei para observar as cenas que sucederiam e tentar entender o que estava a acontecer. Logo ouvi gritos: "é estudante"! Entendi, ele fazia parte do movimento pelo passe livre estudantil e algemado e levado à viatura, outra pessoa gritava "bandido eles não prendem, mas estudante..."! Eu ri da frase, porque é uma frase comum em manifestações estudantis, como se estudante não fosse capaz e também não cometesse crimes.

Não quero aqui me prender à este fato, mas usei-o apenas para ilustrar o que quero dizer neste artigo. Não achei completamente correta a ação dos policiais e não sei qual foi exatamente o crime que o rapaz cometeu, um policial dizia que ele estava "cometendo vandalismo com um pau na mão" (referindo-se à um cano que foi levado com prova). Olhando o grupo de manifestantes, estavam ali, cerca de trinta estudantes, com olhares perdidos e essa história de permanecer ali já tinha muitas semanas.

No dia seguinte, houve uma paralisação dos rodoviários. E o que isso tem a ver? Bem temos duas manifestações, uma dos estudantes e uma dos rodoviários, qual das duas você acha que fez muitas pessoas se preocuparem? Óbvio que a dos rodoviários, que preocupou bastante minha mãe porque tinha que ir trabalhar e porque meu irmão iria perder aula, ele não se mostrava muito preocupado. Mas está aí, duas manifestações, de formas diferentes, mas com algo em comum, a forma antiga de se manifestar.

Cândido Portinari - A Primeira Missa no Brasil
Uma paralisação de rodoviários, atinge diretamente o alvo que eles querem atingir, porque as empresas e o governo perdem em arrecadação e popularidade, duas coisas que eles não gostam de perder. Mas os alunos, a quem querem atingir usando estes métodos antigos e ineficazes? Manifestação tem que ser inteligente, precisa de estratégias, de planejamento, porque se não perdem mais do que pretendem conquistar. E tem tanto material ensinando estratégias militares.. não são o que geralmente se usa contra manifestantes? Sun Tzu descreve bem o que acontece com esses exércitos de manifestantes.. o problema é que se dispersam fácil, porque já não estavam bem formados.

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, os índios não ficaram tão encantados com os invasores como retrata Cândido Portinari em A Primeira Missa no Brasil, não, logo os índios se tornaram seus maiores inimigos, e travavam batalhas para defender seu território, mas perderam, porque os portugueses tinham armas e estratégias de batalha mais evoluídas. Assim, pereceu um povo, o nosso povo, morrendo, se afastando ou tornando-se escravos por falta de estratégias avançadas. Assim perecem também os manifestantes que não usam estratégias e armas à altura para brigar com o inimigo. O quadro de Portinari era uma estratégia política também, a arte sempre foi uma arma poderosa nas mãos erradas, pode ser de repente, uma ótima arma na mão de quem quer lutar bom bons ideais. Mas o que tem sido ensinado nas aulas de artes mesmo? Ou você acha que o fim do Ministério da Cultura não é uma estratégia política para poder calar quem tem boas estratégias de alcançar um bom público contra os inimigos do saber?

NÃO TEMOS CULTURA DO ESTUPRO NO BRASIL

Não me lembro com exatidão em qual dia foi, mas estava em um grupo no whatsapp quando recebi um vídeo que a imagem era estranha (fica a imagem antes de baixar). Dali a pouco os comentários de que era o vídeo do estupro coletivo. Eu não costumo baixar vídeos e imagens no Whatsapp a menos que seja algo direcionado para mim e que eu já saiba o conteúdo. Mas custei a acreditar que era verdade. Não estava acreditando que em um grupo, as pessoas seriam capazes de expor de tal forma uma pessoa. Até então eu não sabia que aquela já era uma das mais comentadas notícias dos dias, estava desinformado. E movido por curiosidade e desejo de justiça baixei o vídeo que me entristeceu bastante. A internet, que pode nos proporcionar coisas muito boas, também nos traz estes momentos de tristeza quando percebemos a que ponto o ser humano consegue chegar.


Desde então, tenho sido bombardeado, nós, né?! Bombardeado com séries de notícias, de manifestações, de avanços nas investigações e lamentavelmente, de opiniões que querem desqualificar este ato, que espero que seja o ápice para políticas públicas que promovam mais segurança às mulheres.

Tem gente que diz que não temos cultura do estupro, veja se pode?! Olhe para sua cor, você é branco, negro, índio ou misto? Bem, temos um país com uma diversidade incrível de cores, mas esta mistura toda não tem um início tão bonito não! Sim, muitas das misturas que temos hoje, foram resultados de estupros, à negras e à índias. Esqueça romantismo de novela e filme, que no Brasil colonial e imperial haviam esses amores, casais apaixonados de diferentes escalas sociais e étnicas, sim, devem ter havido, alguns, mas grande parte foi forçado, pelo homem, branco, rico. Fazendeiro, tinha como escravos negros e índios e usava e abusava, literalmente, das mulheres que o serviam.

Muitos de nós Brasileiros, não temos uma história certa. As crianças não eram registradas como são hoje e qual homem branco iria registrar um filho com uma escrava? Eles tinham suas esposas, suas famílias oficiais, mas aproveitavam de suas escravas e cá estamos nós, muitos, herdeiros da cultura do estupro, sempre escondida por trás do véu. Em meus fins de semana, muitas vezes os passo escutando funk. Por que gosto? Obviamente não. Mas meus vizinhos gostam, e não só gostam como querem evangelizar o mundo com seus aparelhos de som. Evangelizar é uma palavra que nada tem a ver com funk porque evangelho significa "boas novas", e o funk, nada tem de boas novas, pelo contrário, trás más notícias, que se continuarmos por este rumo, conheceremos ainda mais o inferno, porque o ser humano é capaz de fazer coisas cada vez piores. 

Logo após ver o vídeo, chamei a atenção do pessoal para aquele fato, de expor ainda mais algo que não traria resultados. Ora, se um vídeo desse cai nas mãos da polícia, do Ministério Público, de algum órgão ou autoridade competente, devemos aclamar essa tecnologia que pode ajudar a prender canalhas, mas em um grupo de pessoas que nada tem a ver com isso, qual a finalidade? Como diz o professor Paulo José Cunha, intitulando seu artigo (O Estupro dos Valores), nossos valores já foram estuprados e estão sendo estuprados diariamente. Mas ainda tem gente que acredita que não há cultura do estupro, é de fato essa pessoa já foi estuprada e nem se apercebeu.

Como educadores precisamos ter coragem de discutir a erotização e pornografia inserida em nossa cultura porque isso favorece os abusadores que se aproveitam das fragilidades de suas vítimas para cometerem os seus abusos. É preciso discutir com alunos, familiares e amigos o papel das mídias sociais, que não devem ser usadas para a propagação do mal, mas sim para propagar aquilo que enobrece nossos valores.