Não me lembro com exatidão em qual dia foi, mas estava em um grupo no whatsapp quando recebi um vídeo que a imagem era estranha (fica a imagem antes de baixar). Dali a pouco os comentários de que era o vídeo do estupro coletivo. Eu não costumo baixar vídeos e imagens no Whatsapp a menos que seja algo direcionado para mim e que eu já saiba o conteúdo. Mas custei a acreditar que era verdade. Não estava acreditando que em um grupo, as pessoas seriam capazes de expor de tal forma uma pessoa. Até então eu não sabia que aquela já era uma das mais comentadas notícias dos dias, estava desinformado. E movido por curiosidade e desejo de justiça baixei o vídeo que me entristeceu bastante. A internet, que pode nos proporcionar coisas muito boas, também nos traz estes momentos de tristeza quando percebemos a que ponto o ser humano consegue chegar.

Desde então, tenho sido bombardeado, nós, né?! Bombardeado com séries de notícias, de manifestações, de avanços nas investigações e lamentavelmente, de opiniões que querem desqualificar este ato, que espero que seja o ápice para políticas públicas que promovam mais segurança às mulheres.
Tem gente que diz que não temos cultura do estupro, veja se pode?! Olhe para sua cor, você é branco, negro, índio ou misto? Bem, temos um país com uma diversidade incrível de cores, mas esta mistura toda não tem um início tão bonito não! Sim, muitas das misturas que temos hoje, foram resultados de estupros, à negras e à índias. Esqueça romantismo de novela e filme, que no Brasil colonial e imperial haviam esses amores, casais apaixonados de diferentes escalas sociais e étnicas, sim, devem ter havido, alguns, mas grande parte foi forçado, pelo homem, branco, rico. Fazendeiro, tinha como escravos negros e índios e usava e abusava, literalmente, das mulheres que o serviam.
Muitos de nós Brasileiros, não temos uma história certa. As crianças não eram registradas como são hoje e qual homem branco iria registrar um filho com uma escrava? Eles tinham suas esposas, suas famílias oficiais, mas aproveitavam de suas escravas e cá estamos nós, muitos, herdeiros da cultura do estupro, sempre escondida por trás do véu. Em meus fins de semana, muitas vezes os passo escutando funk. Por que gosto? Obviamente não. Mas meus vizinhos gostam, e não só gostam como querem evangelizar o mundo com seus aparelhos de som. Evangelizar é uma palavra que nada tem a ver com funk porque evangelho significa "boas novas", e o funk, nada tem de boas novas, pelo contrário, trás más notícias, que se continuarmos por este rumo, conheceremos ainda mais o inferno, porque o ser humano é capaz de fazer coisas cada vez piores.
Logo após ver o vídeo, chamei a atenção do pessoal para aquele fato, de expor ainda mais algo que não traria resultados. Ora, se um vídeo desse cai nas mãos da polícia, do Ministério Público, de algum órgão ou autoridade competente, devemos aclamar essa tecnologia que pode ajudar a prender canalhas, mas em um grupo de pessoas que nada tem a ver com isso, qual a finalidade? Como diz o professor Paulo José Cunha, intitulando seu artigo (O Estupro dos Valores), nossos valores já foram estuprados e estão sendo estuprados diariamente. Mas ainda tem gente que acredita que não há cultura do estupro, é de fato essa pessoa já foi estuprada e nem se apercebeu.
Como educadores precisamos ter coragem de discutir a erotização e pornografia inserida em nossa cultura porque isso favorece os abusadores que se aproveitam das fragilidades de suas vítimas para cometerem os seus abusos. É preciso discutir com alunos, familiares e amigos o papel das mídias sociais, que não devem ser usadas para a propagação do mal, mas sim para propagar aquilo que enobrece nossos valores.
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